#PETRUS – CAPÍTULO 7

01/07/2018

Gab estava certo. O estúdio dela era perto do parque, a algumas quadras da onde estávamos. Logo que ela abriu a porta, os cachorros entraram na frente, correndo para seus bebedouros. Ela riu enquanto tentava desviar deles.
- Um dia eles ainda me matam. Vão me achar meses depois, desfigurada porque eles me comeram para não morrerem de fome. - ela diz tirando a chave da porta e acendendo as luzes.
- Alguém já disse que seu humor é negro? - eu pergunto enquanto passo a mão em um móvel da sala de espera. - Parece ser lindo aqui, quero ver mais.
- Se servir, meu pai já disse que eu sou a ovelha negra da família. A música da Rita Lee é quase minha música.
- Que música? - eu pergunto.
- Ah, você sabe... "Foi quando meu pai me disse filha... você é a ovelha negra, da familiaaaa" - ela cantou, e Jesus Cristo... Foi a coisa mais linda que eu já vi em anos.
- Você canta bem.
- Para de tentar me agradar, Petrus. Eu não gosto de bajuladores - ela fala rindo.
- Ingrata, não estou tentando agradar, só quero elogiar.
Ela balança a cabeça e finge concordar. Peço permissão com os olhos para explorar o lugar. Ela assente com a cabeça e entro pro próximo cômodo. Era uma sala cheia de fotografias espalhadas pelas paredes, em grandes quadros com molduras. Algumas coloridas, outras em branco em preto. Aponto-as com a cabeça.
- São lindas. Seu trabalho é ótimo.
- Não fui eu quem tirou todas. Algumas são de artistas que eu gosto, outras eu só tratei. Mas a grande parte é obra minha sim. - ela se aproxima mais da parede, confortável em sua calça larga de moletom e seu cabelo preso em um coque. Totalmente diferente da mulher com quem eu me encontrei no restaurante ontem, mas ainda sim incrivelmente charmosa. Passa os dedos por um grande quadro preto e branco e suspira.
- Quem são essas? - eu indago, enquanto analiso a foto na parede. Uma mulher sentada em um balanço sorri para a câmera. Seu cabelo liso e preto, com uma franja se destaca na foto. Ela é incrivelmente linda. Na foto, ela
aponta com o dedo para frente, provavelmente mostrando a câmera a uma menininha que está em seu colo. A criança, confusa, segura um pedaço de bolacha e não sorri pra câmera. Parecia que estava descobrindo algo. A foto
era linda.
- Eu e minha mãe - ela suspira e se volta para mim.
- Ela é linda, mas vocês não se parecem muito. Não que você não seja linda...
Mas é linda diferente dela. Pelo amor de Deus, você entendeu não é?
- Relaxa Petrus, eu entendi. Ela era linda - ela enfatiza o era enquanto passa os dedos na foto e eu entendo. - Ela morreu quando eu tinha 12 anos. E a gente não se parece mesmo, você tem razão. Ela não é minha mãe de sangue.
Droga, que estúpido que eu sou. Falar para uma filha adotiva que ela não se parece com a mãe. Eu era um desastre ambulante.
- Sinto muito, Ane. Eu não quis ser indelicado... - começo a me explicar, mas ela interrompe.
- Não sinta, de verdade. Você deveria sentir se eu estivesse com a minha verdadeira mãe, mas esse é um terreno que não queremos pisar agora. Esse foi o dia que eu cheguei. Ela e meu pai tiraram fotos de mim em todo canto da casa, no jardim, no restaurante que fomos a noite. Eu tinha uns 02 anos, eu acho. Não me lembro de nada, mas as fotos deixam esse momento bem claro para mim.
- Eles foram bons pais? - eu cruzo os braços e me aproximo de outra foto, ela abraçada a um senhor de cabelo cinza e olhos verdes. Distinto, elegante.
Desconfio que seja seu pai, por isso pergunto.
- Ela foi a melhor pessoa que eu já conheci. E ele, bem - ela aponta a foto que eu estou vendo - Ele é incrível. É excêntrico, faz esse tipo de barbaridade na qual estou envolvida e te envolvendo, mas ele é um ser humano extraordinário.
- Que bom, fico feliz - eu digo enquanto olho pra foto. Uma pontada de inveja corre pelas minhas veias. Não me lembro de quando recebi um abraço do meu pai.
- Essa aí fui eu que tirei - ela sorri enquanto conta - foi um trabalhão arrumar o tripé e fazer esse homem parar quieto, mas valeu a pena. É a foto que mais gosto de nós dois.
Passo a hora seguinte andando por seu estúdio vendo fotos, álbuns e seus aparelhos. Visitei a sala de revelação e fiquei entusiasmado de vê-la revelando uma foto minha que tirou sem eu perceber. Descobri que ela tinha dois irmãos, como eles eram e sua relação com eles. Me contou como era a casa em que cresceu e seus pais, sua vida e sua profissão. Foi tão interessante que nem vi a hora passar.
- Droga! - digo olhando no relógio - Eu tenho uma cliente daqui uma hora!
Levanto-me e bato as mãos no bolso em busca da chave do carro. Ela se inclina em minha direção e me entrega a chave.
- Estava no aparador - posso estar enganado, mas sinto um resquício de tristeza em seu olhar, de uma hora para a outra.
- Obrigado Ane - me inclino para lhe dar um beijo no rosto. O perfume dela era diferente, incrivelmente doce. Nunca tinha sentido em nenhuma mulher.
Aquilo me tirou da orbita um pouco, pela segunda vez. A primeira havia sido na noite anterior, ao cumprimentá-la de perto. - Gosto do seu perfume.
- Obrigada Petrus. Agora vai, você deve estar atrasado.
Puta merda! Havia perdido a noção do tempo de novo. Essa mulher me tirava do eixo. Eu tinha menos de uma hora para tomar banho, me trocar e chegar do outro lado da cidade, em um dos hotéis do qual a minha cliente era dona e ainda estava aqui, divagando sobre seu perfume.
- Tchau Ane. Te vejo amanhã? - pergunto antes de sair.
- Claro. Me liga quando estiver disponível.
[...]
Passo meu perfume e me olho no espelho. Tudo ok. Social como ela gosta, com roupas de marca para fingir ser algum acionista ou algo assim. Treino meu sotaque grego(a criatura gosta disso, sabe-se lá porque) que eu já havia perdido a muito tempo e saio de casa correndo para o elevador. Não posso perder essa cliente, não posso mesmo. Ela era outro problema do qual eu precisava me atentar. Me chamava uma vez por semana, sem falhar. Nos
encontrávamos havia um ano e ela me pagava um pouco menos do que a outra, mas porque eu estipulei. O sexo com ela era normal, gostoso até e ela era gata. Devia ter uns 15 anos mais do que eu, mas era bonita...sem plásticas. Ela só pegava firme na malhação e se cuidava. Ela era engraçada e sua companhia fluía legal. As vezes eu ficava um pouco mais e só cobrava a hora habitual mesmo. Ela era interessante por si só.
Toquei a campainha do quarto que era reservado para nós e em menos de 10 segundos ela apareceu na porta, com o mesmo tipo de vestido de matar de sempre e um sorriso malicioso que eu já conhecia. Joana era branca, com olhos e cabelos pretos. Eu me perguntava por que uma mulher daquela pagava para ter sexo. De verdade, não me entrava na cabeça. Porque ela não era insegura, não era feia, era rica e interessante. Um dia eu perguntei e ela disse "Não consigo conviver com ninguém, Petrus. Minha companhia me basta. Não aguentaria um casamento ou namoro, não aguentaria reclamar da toalha molhada em cima da cama ou ver a mesma pessoa todos os dias na mesa do café da manhã. Mas como eu tenho necessidades físicas como qualquer um, eu compro isso. Eu te chamo uma vez por semana, mas o dia que você me cansar, eu te troco. Não é um compromisso entende?"
Na época eu entendi; confesso que até achei graça e concordei com ela. Mas hoje, olhando pra ela me esperando na porta e lembrando de como ela se referiu a mim como uma mercadoria, aquilo me incomodou.
Que droga estava acontecendo comigo, afinal? Eu não deveria me incomodar com isso. Eu escolhi ser uma mercadoria. Eu sou uma mercadoria. Eu sou uma mercadoria cara por sinal. Uma mercadoria que não é para o bico de qualquer uma. Pensar assim sempre me ajudou e vai continuar ajudando, porque eu não vou deixar esse sentimento de auto piedade se apossar de mim a essa altura da vida. Tudo o que eu conquistei foi assim e assim será até quando der. Entrei e segui o roteiro habitual. Fiz tudo como ela gostava, como sempre fizemos. Eu cumpri minha obrigação e recebi meu pagamento, mas eu senti que não estava ali completamente por algum motivo que eu ainda não entendia. Quando acabou o meu horário, me troquei e me despedi dela.
- Você já vai mesmo? Você nunca me deixa no horário combinado - ela fala com voz manhosa e se enrola nos lençóis de seda. Aquilo sempre me atraiu, mas hoje não fez muita diferença. Meu trabalho estava cumprido.
- Desculpa Jô, mas eu tenho uns compromissos inadiáveis agora. - me inclino e lhe dou um selinho rápido na boca.
- Cadê meu beijo de sempre, Petrus? Não é assim que você se despede de mim. - ela me puxa e me beija forte, buscando a minha língua com a sua, mas eu não consigo corresponder. Que raios está acontecendo comigo? - A gente se vê semana que vem?
Semana que vem já vou estar no litoral, se tudo der certo.
- Jô, eu vou ter que fazer uma viagem longa, coisa de família. Eu entendo se você colocar alguém em meu lugar, mas eu realmente preciso ir. Sábado já vou ter ido, então semana que vem já não nos veremos.
- Claro que eu vou por alguém no seu lugar, Petrus. Mas quando você voltar, eu dispenso ele. Eu realmente gosto que isso seja com você.
Um problema a menos, se eu tiver sorte não vou perder todas elas. Eu ainda não sei por que eu concordei com esse plano maluco.
- Ótimo Jô. A gente se fala assim que eu voltar. Agora preciso mesmo ir, tem alguém me esperando. Saio do quarto sabendo que não há ninguém me esperando. Nunca há. Mas eu tenho uma ideia fixa na minha cabeça e eu vou enlouquecer se eu não fizer, mesmo sem saber o motivo. Pego meu celular e entro no elevador; ouço o primeiro toque quando as portas se fecham.

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