#PETRUS – CAPÍTULO 5
29/06/2018
Chego em meu apartamento ás 2:15 da manhã. A sorte é que amanhã não tenho nenhum compromisso antes do almoço, então vou poder relaxar e dormir á vontade. Preciso recuperar minhas forças. Depois que sai do restaurante, uma cliente me ligou e eu desviei o trajeto para ganhar incríveis 3 mil reais em uma hora. Essa cliente pagava o valor máximo porque seus gostos eram digamos no mínimo estranhos e bem, eu gosto de sexo comum.Se for para eu sair da minha zona de conforto, tem que valer a pena. Na verdade sempre vale. É só você calcular que em uma hora eu ganhei o que muitas pessoas não ganham em dois meses e bem, isso não soa nada mal paramim. Depois de um tempo você acostuma e consegue diferenciar o que é trabalho e o que não é: a questão é que depois que entrei nessa vida nunca tive ninguém. Eu não me apaixono, não consigo me envolver emocionalmente. Também pudera, que tempo eu tenho? Só se um dia eu me apaixonar por uma cliente, o que eu acho praticamente impossível. Meu autocontrole é incrível e por mais que a mulher seja gostosa, simpática e divertida, nunca passa de trabalho para mim. Eu aproveito o momento, mas na hora que a porta se fecha em minhas costas, aquilo é um caso encerrado.Tenho medo de um dia me envolver com alguém e no final da noite passar a conta para o depósito ou pedir o meu cheque, de tão acostumado que estou a viver assim. Tudo bem, eu não reclamo. Eu até gosto, sabe? Eu tenho uma, duas, três mulheres diferentes por dia e muito dinheiro na conta. Não tenho muito do que reclamar. Claro, viver assim me tirou muitas coisas boas, me tirou pessoas importantes e na maioria das vezes eu me sinto sozinho, mas a vida é feita de escolhas. Eu fiz a minha e não fico amargando isso pelos cantos. Eu ganho meu dinheiro e compro minha felicidade. Ah, por favor.Você sabe que o mundo é assim. No fim das contas, o dinheiro sempre encerra o assunto. Essa cliente é uma das fixas que eu não sabia o que iria fazer para dispensar por três meses. Pensei na loucura que eu estava me metendo e tentei dispensar o pensamento. Aqueles enormes olhos castanhos cheios de arrogância me passaram pela mente e eu ri. A mulher era completamente louca de pedra.Entrei no apartamento e tirei a camisa, jogando-a no sofá. Me dirijo á cozinha e abro a geladeira á procura de água. Ouço um barulho e olho ao redor. A luz do quarto de Gabriel está acesa. Vou até o corredor, paro ao lado da porta e consigo ouvir a voz dele:- Eu te amo, sabia?Eu não acredito. A regra sempre foi não trazer mulher pra cá. Já estava disposto a entrar no quarto e acabar com a palhaçada quando o ouço continuar a conversa.- Ok, amorzinho. Até amanhã. Beijo, tchau.Ele estava no telefone. Menos mal. Dei dois toques na porta e ele me mandou entrar.- Você não estava ouvindo minha conversa, estava? -ele revira os olhos pra mim.- Você é um babaca sabia? - eu taco o travesseiro mais próximo e ele desvia o rosto.- Eu dispenso o sermão, Petrus.- Quando você vai contar pra ela?- Não sei, pelo amor de Deus! Eu preciso de coragem. - ele se vira na cama e coloca o travesseiro em cima da cabeça. Claramente não quer conversar, mas eu ia falar mesmo assim.- Gabriel, você está com ela há três meses. Ela não merece isso e você sabe.A Laura é um amor de pessoa, é inteligente, é bonita. Ela não merece viver na mentira assim.- Você não é um santo, cara! Desde que eu te conheço, quantas pessoas você teve? Hein, me diz? Quantas vezes você amou? Ah verdade... Nenhuma! Não fala do que você não sabe.Ok, essa doeu. Mas ele precisava me ouvir.- Pelo menos eu sou sincero. Não minta pra alguém tão legal. Você tá poupando a coitada de alguém que realmente vá ficar com ela de verdade.Imagina o quanto essa menina irá sofrer Gabriel. Ou você sai disso ou você conta logo de uma vez.- Você não é meu pai, pô! - ele se altera mas logo se arrepende visivelmente e abaixa o tom de voz - Mas você tá certo. Eu vou dar um jeito, eu prometo.Eu tô gostando dela de verdade, não queria que fosse assim.- Então sai disso e vai viver sua vida com ela.- E voltar para o buraco de onde eu saí? Nunca. A Laura é bem nascida, bem criada... Rica. Nunca aceitaria um idiota como eu se não fosse o dinheiro que ganho, Petrus. Eu quero poder manter o nível de vida dela.- Se você pretende continuar nisso você vai perder ela. Uma hora a casa cai, Gab. Eu estou te avisando, cara. É por isso que eu nunca me envolvi com ninguém - aponto o dedo para nós dois, alternadamente - Gente como a gente não nasceu para o amor.- Eu sei, vou dar um jeito. Agora vai cuidar do teu próprio rabo e dormir, porque eu também preciso. Amanhã tenho cliente cedo.- A louca da corrida?- Pois é. Eu vou ter que correr 05 quilômetros para depois subir pro apê dela, finalizar o trabalho e ganhar meu suado dinheirinho. - literalmente suado.- Tá bom. Boa noite, brother. Cria juízo e pensa no que eu te falei.- Petrus... se apaixona um dia e depois a gente conversa. Boa noite.[...]Acordei cedo no dia seguinte com Anelise me ligando. Puta merda. Ela ainda nem era minha mulher de mentira e já estava me dando trabalho. Imagino o que uma mulher de verdade possa fazer com a vida de um cara despreparado.Casamento nunca será pra mim.Caminho até a cozinha para tomar café depois da ligação dela. Vamos nos encontrar no parque no centro da cidade daqui uma hora, então preciso ser rápido. Dormir pouco me deixa de extremo mau humor, então preciso me recompor para não assustar a menina. Fosse a loucura que fosse, aquilo ia me trazer uma boa grana.- Bom Dia, flor do dia! O que faz acordado tão cedo? - ouço a voz animada do Gab na cozinha.- Sei lá. Que horas são? - eu pergunto ainda tentando abrir os olhos para a luz que entrava pela janela lateral.- 09:30, pequeno gafanhoto. Nem é tão cedo assim, vai. Já acordei, corri 05 quilômetros e ganhei meu dinheiro. Aquela mulher é louca, rapaz.Louca. Coitado dele, ainda não fazia idéia da onde eu estava me metendo.- Falando em louca, isso me fez lembrar que preciso te contar um negócio.-Falaê- Vou sair da cidade por três meses, então você pode ficar com o apê só pra você. Na verdade, talvez eu volte antes... não sei como tudo vai ocorrer.-Vai viajar com uma cliente? Achei que você dispensava viagens longas cara.É arriscado perder dinheiro, você sabe disso. Ela vai pagar tão bem assim?- Vou. Na verdade, ela não é bem uma cliente. Quer dizer, ela é uma cliente, mas não vai ter sexo.- Entendi foi nada.- É, falando assim fica confuso mesmo - discorro a história rápidamente para ele enquanto como. - Cara, isso tem que ficar entre nós, tá ouvindo?- Claro que vai ficar entre nós, Petrus. Que coisa idiota de falar para mim, somos amigos há tanto tempo velho. Como ela chama?- Anelise.- Sobrenome - Gab pergunta enquanto enfia uma colher de cereal na boca - Dá pra analisar o poder aquisitivo de uma pessoa só pelo sobrenome, sabia?Se for gringo, já é grande coisa.- Schmidt - eu falo meio incerto - Acho que é isso, Schmidt.- Nossa, esse nome não me é estranho... deixa eu pensar, deixa eu pensar. - ele estrala o dedo no ar - Já sei. Ela é fotografa né?Me toco naquele instante do tamanho da furada que eu estou entrando. Eu tenho menos de uma semana para fingir ser o marido dela e eu nem sabia a profissão da dita cuja. Socorro.- Cara, nem faço idéia.- É, é ela mesmo. Ela tem um estúdio perto do parque.- Acho que deve ser mesmo, porque combinamos de nos encontrar lá em meia hora. Porra, eu já tô atrasado. Você fala demais, Gab! - dou um peteleco na cabeça dele enquanto passo por trás de sua cadeira e levo meu prato na pia. - Como você sabe que ela tem um estúdio lá? - eu pergunto desconfiado.- Primeiro porque tem uma enorme placa lá com o nome dela. Segundo, porque uma cliente quis um álbum meu e eu fiz lá. A mulher é profissa, ficou show o negócio.- Ah, entendi.- Relaxa cara, eu nunca catei sua esposa - ele fala rindo. Brincadeira de mau gosto, até parece que alguma vez na vida eu já me importei com alguma cliente.

