#CAPÍTULO 7
11/05/2018
Sem sombra de dúvidas eu odeio despertador. Já tentei colocar vários tipos de música para despertar e mesmo assim não vai. Passei até a odiar as músicas que me acordavam.Olho no celular, - seis e meia da manhã - e nem acredito que estou mesmo acordando esse horário para fazer mudança.Agora com a mudança dela para a mesma rua que meu pai me "arrumou" uma casa, terei que deixar o luxo do meu apartamento.Pode parecer coisa de louco, mas pedi para a Dorenice colocar meu xampu dentro do frasco do xampu popular.Posso estar interpretando um papel de pobre, mas não abro a mão dos meus luxos.Dorenice me comprou roupas até em loja do povão. Não sei como as pessoas conseguem usar essas roupas com tecido duro, sem caimento e que pinicam.Visto só uma calça de moletom e uma camiseta com estampa "Fui a Ijuí e lembrei de você".Cafona demais.Coloco as lentes, - agora já sem dificuldade - calço os tênis e escovo os dentes.Vicente já está pronto.Marli vai fazer a comida para mim todos os dias. Ela vai congelar só para eu esquentar no micro depois.É só por mais treze dias Bernardo.Treze dias...Tranco o apartamento e pego meu carro vermelho que está ao lado do meu importado.Ando a 80KM/h - o carro não acelera mais do que isso -, ouvindo a estação local. A notícia é sobre o impeachment da presidente do Brasil. Só com essa informação o dólar já caiu 0,18%. Meu pai deve estar possesso.Para quem exporta, isso não é nada bom. Já para os brasileiros, é a esperança de um país melhor.Chego ao sítio e o caminhão já está parado em frente à casinha branca.Minha barriga gela. Hoje vou conhecer os pais da matraquinha.Estaciono o carro ao lado do caminhão.Manu está linda numa calça de moletom cinza e uma regatinha branca.Bem diferente de estar vestida no uniforme marrom.- Bom dia guri. Que bom que chegou. O ajudante do motorista não pode vir junto.- Bom dia, Manu. Tô vendo que vai sobrar tudo para mim.- Poxa, eu queria muito ajudar, mas já que você insiste em carregar tudo sozinho, já pode começar. As caixas já estão todas lacradas.Eu, Bernardo Salles, devo estar com alguma doença mental. Jamais em minha vida ajudaria a realizar a mudança de alguém que eu conheço há três dias.Entro na casa e pelos móveis percebo a simplicidade da família. O sofá parece ser do século passado. A televisão ainda é a de tubo. Quem hoje em dia não tem uma TV de LED de no mínimo de 32 polegadas?- Está apreciando as nossas antiguidades?Dou um pulo ao ser pego no flagra pela Manu e por uma mulher de meia idade que presumo ser sua mãe.- Vicente, esta é a Lourdes, minha mãe - Fala apontando para a mulher que está ao seu lado. - Mãe este é o meu amigo, Vicente.A senhora vem até mim e estende a mão. É muito estranho para mim essas proximidades com pessoas as quais nem conheço.- Prazer Vicente. Sou a mãe dessa menina falante. Muito obrigada por nos ajudar com a mudança.- Não precisa agradecer dona Lourdes.- Claro que precisa, meu jovem - fala uma voz de homem, vindo de trás de mim. - Minhas meninas precisam da ajuda de um homem forte, já que comigo não podem contar muito.Viro-me e dou de frente com um senhor de cabelos grisalhos e olhos tão azuis quanto o da filha. Suponho que este seja o pai dela.Ele vem empurrando a sua cadeira de rodas até onde estou.- Prazer, Vicente. Eu tenho ouvido muito seu nome aqui por esses dias. Meu nome é Josias - diz estendendo a mão. - Sou o pai da Emanuelle.- É Manu, pai - grita a Emanuelle.- O prazer é meu seu Josias. Espero que só tenha ouvido coisas boas ao meu respeito.- Vi é claro que só falo coisas boas de você.Todos na sala riem. Não tem como não rir estando ao lado da Emanuelle. Mesmo que a piada não seja tão engraçada, a sua risada acaba roubando a cena. É escandalosa e estranha.- Vamos carregar o caminhão? - O motorista aparece na porta segurando uma caixa.- Vamos sim - responde Manu.Carregamos caixas e mais caixas de roupas e tralhas. A geladeira antiga pesava quase meia tonelada. A máquina de lavar então... nem se fala.Uma hora e meia depois, tudo já estava no caminhão.- Vi, tu pode levar meu pai no teu carro? Minha mãe não quer ligarpara a ambulância vir buscá-lo.- Claro que posso. Vocês três podem vir no carro comigo.- Leva meus pais que eu vou no caminhão. Tenho que dar o endereço ao motorista.A notícia não me agrada muito. Não quero que ela vá com ele sozinha no caminhão. Eu percebi como aquele motorista olhava para os seios dela sobre a blusa fina.- Eu posso emprestar meu GPS para ele, assim vamos todos no carro.- Vi, eu quero mesmo ir no caminhão - fala rindo. - Pelo menos uma vez na vida, vou ficar no alto.Decido não insistir, mas se aquele imundo fizer alguma gracinha para ela, furo os dois olhos dele.- Não ligue para esse jeito dela não. - Diz Josias. - Manu sempre teve esse jeito espontâneo.- Eu não ligo.Pelo retrovisor vejo os pais dela se olhando. Não deve ser fácil ser parente de alguém tão fora do cabo.- Obrigada Vicente, por nos dar uma carona e por ser amigo da Manu - Lourdes fala sem levantar os olhos.Tirando a minha, essa é a família mais estranha que conheço.- Não tem de que dona Lourdes.Continuo fazendo o trajeto em silêncio. Sigo o caminhão que pelas minhas contas anda um pouquinho acima da velocidade permitida.- Vicente?Sou tirado dos meus devaneios pela voz do Josias.- Sei que pode estar achando que somos uma família estranha e fora dos padrões. Somente a Lourdes quem se salva dessa família de loucos - Josias fala tudo de uma vez. - Não quero que nos interprete mal, mas peço para que cuide de nossa menina.- Me desculpe senhor Josias - falo ainda processando o que ele acabou de dizer. - Mas eu e a Manu não somos nada além de amigos, se é isso o que o senhor imagina.- Pois amigos cuidam uns dos outros.A buzina do caminhão chama a nossa atenção. A casa que eles alugaram fica realmente perto da minha. Minha, não. Fica perto da casa do Vicente. Na mesma rua para ser exato.A casa é ainda mais simples do que a "minha". É pintada de azul claro com algumas rachaduras e descascados. O portão é de madeira e vejo que a casa não tem piso de concreto, somente terra batida.- Chagamos ao nosso lar doce lar - Lourdes fala dando um beijo leve na testa do marido.Manu pula do caminhão parecendo criança quando ganha brinquedo novo. A alegria era visível em seu rosto.- Uhuuuuuuu, chegamos ao meu lar novo! - Grita vindo em direção ao carro.Lourdes desce do carro indo em direção a filha.- Sei que não posso ajudar na mudança, mas gostaria de não ficar assando no carro - Josias diz rindo. Para um deficiente, ele é bem espirituoso.Desço e monto sua cadeira de rodas. Manu vem e me ajuda a colocar o pai na cadeira.- Vamos então conhecer nosso ninho novo? - Manu fala praticamente gritando.Lourdes empurra a cadeira do marido em direção a casa azul. O motorista do caminhão já abre a porta traseira dando a entender que ele está com pressa para descarregar.- Vamos entrar pelo portão com o pé direito - Manu fala já tirando o pé do pai do apoio da cadeira. - Vamos todos juntos. - Pisca para o pai que apenas ri da sua filha maluca.- Você também guri. Quero que entremos todos juntos.Essa amizade está indo longe demais. Participar de algo tão familiar assim não é para mim.- Acho melhor você entrar somente com seus pais, Manu. A casa nova é de vocês.Ao contrario do que imagino, ela dá uma risada e dá com os ombros.Vou até o caminhão para ajudar o motorista a descarregar.Algumas caixas sequer estão lacradas. Manu ainda tem algumas bonecas e ursos de pelúcia.Até um diário, de capa cor de rosa, encontrei no meio da caixa descrita "Não mexa, perigo de maldição a quem desobedecer".Sorrio, quem tem medo de maldição, quando já se tem uma vida toda ao avesso?Pego o diário na mão e abro. Que se dane, como ela diz, somos amigos e amigos não tem segredos.Abro em uma página qualquer. Encontro desenhos de florzinhas e corações. Vário M + M escritos pela folha toda.Que bosta é essa? Quem é esse tal de M?- Bah, o que tu tá fazendo com meu caderninho nas mãos? Pirou guri?- Eu só estava descarregando as coisas - digo tentando passar a segurança que não tenho.- Vou fingir que não vi você com ele aberto nas mãos, mas que isso não se repita - reclama fazendo bico.- Você não existe sabia?- Por que diz isso?- Você me pegou lendo seu diário e o máximo que faz é um bico?- Olha Vi, você merecia uns tabefes nessa sua cara de bolacha, mas como sou tua única amiga, acho melhor manter as coisas assim.- Como é? Minha única amiga? - Gargalho desdenhando - Tá se achando a última bolacha do pacote.- Fala sério guri, eu sei que tu me ama.- Você só pode estar brincando. Você nem faz meu tipo.- As pessoas olham demais para forma física e se esquecem de apreciar o mais importante do ser humano.- A bunda?- O coração.- Você está me cantando, Manu?- Claro que não. Só estou te fazendo entender algumas coisas.- Você mal me conhece e já vem com esses papos estranhos.- As almas se reconhecem pela energia.- Manu, essa conversa está muito estranha, quer dizer, você está estranha. Você me pega lendo seu diário onde tem vario M + M em varias páginas e agora fica falando essas coisas sem nexo.- Desculpa, Vi. Deve ser a fome - alega gargalhando, mudando totalmente o ambiente que estávamos há um segundo.- Você é realmente maluca - sibilo.- O que você falou?- Nada, você precisa comer urgente, está até ouvindo vozes.Terminamos de descarregar as poucas coisas que eles tinham. Dona Lourdes comprou uma comida congelada e esquentou no forno do fogão.Era estranho, porém aconchegante almoçar em pratos diferentes, pois nem um jogo de jantar inteiro eles tinham, com copos de plástico e talheres sem cabos. Realmente a família da Manu é muito humilde.- Vicente eu e a Lourdes não temos nem como agradecer pela ajuda com a mudança.- Não precisam me agradecer. Eu quem devo fazer isso pela hospitalidade.- Guri, não te mandando embora, mas já mandando, acho melhor tu ir dormir um pouco que a noite será longa.- Eu já estava de saída mesmo.Despeço-me dos pais da Manu, com um aperto de mãos. Ela me segue até a saída e me dá um beijo no rosto.É estranho como essa menina mexe com algo dentro de mim. O pior é que não é atração física, pois sequer meu pau fica duro, acho que deve ser algo fraternal.Pego o carro e ando até o fim da rua. Paro em frente à casa amarela.É, vamos continuar essa farsa. Serão só mais alguns dias.Ligo para o ditador Júlio Salles e o informo da minha decisão de continuar no jogo. Não falo nada sobre a Manu, na verdade nem estou fazendo isso por ela, digo apenas que é para manter meu cargo.Tomo um banho rápido e me deito na cama dura. Ajusto o despertador para daqui a quatro horas.Sem me dar conta, adormeço pensando nela.

