#CAPÍTULO 20

14/06/2018

Após o baque que foi ouvir o nome da minha maluquinha saindo de outra boca a não ser a sua, a solução foi sair de lá o mesmo instante, pois não tinha mais clima - e nem ereção -, para continuar lá.
Parece que quando o dia começa ruim ele tem tendência a piorar. Eu deveria era ter ficado em casa tomando uma boa cachaça e ouvindo uma boa música. Volto ao hotel a fim de fechar a conta e retornar para minha cidade.
Literalmente eu já não era mais o mesmo Bernardo de dez dias atrás. Maldita hora em que aceitei participar desta palhaçada toda. Maldita hora em que conheci Emanuelle.
Pago a estadia não utilizada e entro no meu carro. A batida forte da música a qual não conheço, me faz companhia durante o percurso todo.

Emanuelle

Tá tudo estranho. Eu bem que poderia ter dado ouvido a minha razão e não ter me envolvido com o Vicente. Quer dizer, com o Bernardo. Que confusão eu me meti. 

Ainda não avisei meus pais sobre essa palhaçada toda. Eles finalmente acharam que eu havia encontrado alguém disposto a me amar e quem sabe até casar. Mero sonho bobo. Às vezes é como dizem: a carência nos faz ver amor onde não tem. Só eu mesmo para acreditar em amor a primeira vista.

Quando vi o Vicente pela primeira vez naquele carro vermelho, senti algo diferente. Ele era lindo, mas foi o seu modo de falar e me tratar que me fez ver que ele possivelmente era um bom homem.
Em questão de dias - poucos na realidade -, eu já estava perdidamente apaixonada por ele.
Quando ele me deu o anel então, eu quase surtei! Posso não entender muito de jóias, mas no fundo sabia que era algo caro. Não que isso me importava, porque até mesmo um anel de doce me faria feliz, mas o fato de saber o preço do anel me fez sentir-me valorizada.
O lado ruim de ser sonhadora é nunca estar preparada para as frustrações. Eu quis tanto estar ao lado do Vicente como mulher, que acabei me entregando de corpo e alma. Não vou dizer que me arrependo, foi mágico, como sempre imaginei que deveria ser, mas eu deveria ter esperado um tiquinho só.
Cá estou eu acordada, sentada na varanda de casa tomando um chimarrão, acompanhada dos meus dois gatinhos. Seria trágico se não fosse cômico. Sorrio imaginando-me com 70 anos, morando numa casa sozinha, rodeada de gatos. As crianças me chamando de tia e toda vez que jogassem a bola no meu quintal, eu amargurada, entregaria a bola a eles somente após furá-la. Seria a bruxa do bairro.
Afasto esse pensamento porque outro me toma a mente. Lúcio.
Hoje no escritório do Bernardo foi um quebra pau. Nunca o vi tão transtornado. Na verdade nunca havia visto o Bernardo, só conhecia seu lado Vicente.
Queria muito ter ouvido a desculpa que ele me daria, mas nem cheguei a falar com ele. Os gritos e barulhos de algo quebrando em sua sala foi estrondoso. Até o senhor Júlio correu para lá.
Sai de lá com o Lúcio e fomos até o posto de saúde ver os ferimentos do seu rosto. Ele não quis dar queixa do Bernardo na delegacia. Falou algo como fazê-lo sentir na pele, e blá, blá, blá o qual não dei importância.
Estou tão confusa com isso tudo, chego até a pensar que ele gosta mesmo de mim, mas afasto o pensamento porque sei que se ele sentisse mesmo algo, não teria me enganado e transado comigo como o Vicente.
Não vou ficar me lamentando, não sou dessas. Eu gostei sim da noite de amor que tive com o Bernardo. Ele foi carinhoso, paciente...
Óbvio que se ele não tivesse mentido pra mim e se estivéssemos juntos ainda, eu ia querer repetir a dose por várias vezes.
Tomo um gole do chimarrão que acabou esfriando na cuia. Fiquei tanto tempo pensando que esqueci de beber...
A vida é tão estranha e injusta. Numa hora está tudo bem, estamos vivendo um conto de fadas - sem bruxas - e depois do nada, eu nem chego ao "felizes para sempre". E a bruxa dessa vez é o próprio príncipe.
Hoje o Lúcio se declarou para mim e foi tão estranho. Nem sei o que senti na hora. Pedi a ele um tempo para digerir tudo o que tinha se passado.
Ele disse que me esperaria o tempo que fosse necessário. Achei meigo da parte dele. Quem sabe não curo a ferida de um amor com outro amor?
Estou me preparando para entrar quando vejo um carro freando bruscamente em frete de casa.

Bernardo

Caralho, eu não queria, mas preciso muito falar com a maluquinha. Sei que ela está acordada, vi que a luz da varanda está acesa e sei que eles dormem com tudo apagado.

Passo em frente a sua casa bem devagar e confirmo minha suspeita. Ela está sentada na varanda olhando para o nada como se tivesse hipnotizada.
Dou a volta no quarteirão até estar finalmente parando o carro em frente ao seu portão.
Desço do carro e ela vem em minha direção.
Está lindamente vestida num short doll verde claro. Puta que pariu, ela é gostosa demais.
- O que tu quer aqui? Já viu que horas são?
- Eu preciso falar com você - respondo me segurando para não puxá-la em meus braços.
- Não poderia esperar até amanhã?
- Poderia. Mas não quis. Quero falar com você agora.
- E quem disse que eu quero falar com você guri?
- Vamos Manu, por favor, sem birra.
Ela cruza os braços e começa a bater o pé como se estivesse cogitando negar meu pedido.
- Tudo bem, mas com uma condição. Eu vou te ouvir e tu vai me ouvir na mesma proporção, mas quero que ao final, tu respeite o que eu
decidir.- Entre no carro.
- Tá maluco? - diz quase gritando.
- A maluquinha aqui é você. Vamos apenas conversar no carro. Você está de pijama na rua e ele te deixa muito... desnuda.
Ela dá um sorriso de canto de boca. Eu estou pirando só pode. O que está acontecendo com o poderoso Bernardo? Estou de quatro por uma mulher que nem de longe escolheria em outras ocasiões.
- Tu ainda tem o CD que te dei? - diz pegando a embalagem de cima do banco.
- Tenho. Eu ouço. Às vezes você fala como se as coisas tivessem terminado há tanto tempo.
- Mas a gente não terminou nada guri.
Meu coração começa a bater em um ritmo acelerado e sei que ela pode notar isso.
- Eu terminei com o Vicente. Já com você não tenho nada a ser terminado, uma vez que não temos nada - diz de uma vez, quase sem respirar.- Você sabe que não é assim que as coisas funcionam Manu. Eu já cansei de te explicar que o disfarce era necessário.
- Tu mentiu para mim. Tu fala com uma calma como se eu estivesse exagerando em estar chateada.
- Você está exagerando. Será que não percebe? - falo passando as mãos nos cabelos e respirando fundo para continuar. - Eu já pedi desculpas,
já me declarei mais de uma vez. Até sua demissão eu dei, contra minha vontade. É tão difícil assim me dar uma segunda chance?
- Eu não posso...
- Por que não pode?
- Porque eu... eu estou saindo com o Lúcio.
- Você o quê?
- Isso mesmo que você ouviu. Eu e o Lúcio estamos saindo.
- Eu não acredito nisso que estou ouvindo.
- Pois estão acredite. Eu conheço o Lúcio há anos e sei que ele gosta realmente de mim.
Solto uma sonora risada. Acho que mais por nervosismo do que por achar graça.
- O Lúcio só quer te comer Manu. Larga de ser tão ingênua.
- Estamos falando do Lúcio e não de você. Acho que tu deve ter se confundido nessa parte.
- Olha, Manu. Eu vim aqui com todo amor e paciência com o intuito de começarmos do zero, mas vejo que você já fez sua escolha. E por um lado é até bom, porque isso mostra como você é. Pensei que fosse diferente das
garotas as quais eu era acostumado a sair, mas vejo que me enganei. Elas pelo menos se dão valor e cobram por eles, já você é uma vadia barata que nem termina um relacionamento e já engata outro.
- Tu não tem o direito de falar assim comigo! - grita.
- Ah, quer saber? Vá se foder. Quero que você seja muito feliz com o Lúcio. Vocês se merecem.
- Eu nunca mais quero te ver na minha frente Bernardo - fala chorando.
- Seu pedido é uma ordem, princesa.
Preciso sair daqui antes que exploda. Como assim ela está saindo com o Lúcio? Esse canalha me paga.
Entro no carro e arranco cantando pneu. Pelo retrovisor vejo a Manu sentar na calçada e cruzar os braços. Ela está chorando, assim como eu.
Soco o volante, mas minha vontade era estar socando a cara do Lúcio.
Minha noite está uma bosta. Bem que meu pai me disse que não daria certo. Que ingênuo que fui...
Pego o celular e disco o número que está nos favoritos. No segundo toque ela me atende.
- Alícia, está disponível?
- Para você, sempre Bê - Responde com voz sedutora.
- Estou a fim de conversar. Encontre-me no meu apartamento em uma hora.
- Estarei lá. Beijos.
Desligo e sigo para casa. Sei que a noite será longa e que Alícia será uma boa companhia.
Amanhã será um novo dia e espero que seja bem melhor do que este que passei hoje.
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