#Capítulo 2- Janaína
Meus pés formigavam um pouco e meu quadril parecia estar colado na tampa plástica do vaso sanitário. Pela janela minúscula, percebi os espelho para saber o quão inchado meu rosto deveria estar. Suspirei fundo e me recostei na caixa de cerâmica da descarga, quando o jornal que estava no suporte de revistas caiu no piso, com suas folhas espalhadas pelo piso.- Porcaria! - Bufei para mim mesma enquanto juntava osclassificados, e percebi que havia uma vaga em destaque ocupando boa parte da página e me chamou atenção."Contrata-se secretária, para consultório médico, não necessitaexperiência, requer habilidade com crianças... "- Hum... isso pode ser interessante. - Rasguei a folha, ficandoapenas o pedaço onde estava o anúncio.Talvez esse pudesse ser um bom começo, o primeiro passo paraminha independência e, mesmo que eu não conseguisse aquela vaga, não pararia até que conseguisse um emprego. Fiquei de pé e fui até o balcão,espantada com meu próprio reflexo: os cabelos desgrenhados, algumas manchas de sol nas bochechas e as sobrancelhas por fazer. Forcei um sorriso,que pelo menos ainda era apresentável, dentes branquinhos e alinhados. E o buço, meu Deus! Como eu passei a me desgostar desse jeito?Olhar para meu reflexo e me comparar mentalmente com a amantedo meu marido foi como ser crucificada. Passei a mão pelo rosto, vistoriando tudo, à procura de rugas. Oh Deus! Eu precisava de uma recauchutada."Trinta e cinco anos, Janaína! Mas com aspecto de quem está beirando os cinquenta! Não é à toa que o Nando arrumou outra! " Aquele pensamento me fez estremecer. Me despi, deixando a camisola e robe no cesto de lixo. Meus novos objetivos de vida seriam, além do emprego, emagrecer. Emagrecer tanto, ao ponto de ficar gostosona como era quando aquele filho da mãe me conheceu. Aí sim, eu pisaria nas bolas dele e o faria lamber o chão onde eu piso!A ideia me fez rir sozinha. Deixei a água morna escorrer pelo meucorpo, e me permiti desfrutar de um longo e demorado banho, como não fazia havia muito tempo, um daqueles cheio de espumas perfumadas e, o principal,sem interrupções. À medida que os filhos crescem os problemas crescem com eles, como as brigas por espaço. "Mãe, ele está mudando o canal! Mãe cadêmeu uniforme!? Mãe...mãe... mãe... costura isso, compra aquilo, mãe você é tão careta... mãe! - Enrolei-me na toalha, passei uma máscara hidratantenos cabelos e coloquei uma touca plástica cor de rosa. Abri a primeira gaveta do balcão, onde ficavam os aparelhos de barbear, pentes, escovas, gel para cabelo e, bem lá no fundo, encontrei minha nécessaire com algumas maquiagens e um retângulo amarelado envolvido em uma sacolinha plástica.Levei o tablete de cera para a cozinha e passei pela sala sem nem mesmo olhar para o sofá. "Espero que passe o dia com dor nas costas, seu cretino sem vergonha. "Eu aquecia a cera no micro-ondas quando ouvi alguns gemidosfemininos vindos da sala. Peguei a xícara com a cera quente e fui ver o que estava acontecendo, e encontrei Nando, que dormira com a televisão ligada,com a mão esquerda dentro da calça. Ele roncava de boca aberta e a cabeça pendia para trás. Na televisão, duas loiras faziam uma orgia com um homem de abdômen trincado.Esquece meu aniversário, tem uma amante e dorme depois de semasturbar vendo pornô? Fernando Alves Mendes, você não perde por esperar! Apesar de minha vontade insana de despejar a cera quente em seu o banheiro e lambuzei a parte superior acima do lábio com a cera quente, o cheirinho de mel e amêndoas que vinha do líquido escaldante era bem agradável.- Um, dois, três! - Arranquei a primeira parte e senti como se apele tivesse sido removida com a cera. Uma marca vermelha logo se formou no local. Caramba, isso dói demais! Como algumas corajosas conseguem arrancar da periquita? Prendi a respiração e repeti a contagem. Minha pele pinicava e ardia como fogo. Bufei, deixando o ar sair de meus pulmões. "Bigode removido, OK! " O notebook ainda estava no criado mudo. Sentei na cama me recostei na cabeceira, colocando o computador no o colo e, assim que ergui a tampa, a foto de nossos três filhos surgiu na tela. Eles sorriam abraçados, vestiam togas e comemoravam aos pulos a formatura do ensino médio. O que eles diriam sobre minha pretensão de mudar? Ficariam ao meu lado ou talvez se voltariam contra mim, querendo ficar apenas com o pai? Fiquei olhando para a tela em branco mas consegui digitar algumas linhas. Na verdade, não havia muito o que escrever: eu era formada em enfermagem, mas nunca cheguei a trabalhar efetivamente. Mesmo insatisfeita com meu pobre currículo, enviei para o e-mail que tinha no pedaço de jornal. O relógio marcava seis da manhã. Abaixei a tela do computador e o deixei em cima da cama ainda benfeita. Abri meu lado do guarda-roupa, escolhi uma camisa social branca e uma calça com corte reto e combinei com um par de salto pretos. Abri a primeira gaveta e escolhi uma calcinha com forte compressão, para dar uma disfarçada na barriga e escolhi um sutiã no mesmo tom da calcinha, bege. Depois que tirei o creme dos cabelos, e amassei os cachos na toalha eles ficaram um pouco mais brilhantes. Não era muito, mas eu já estava me sentindo mais confiante ao olhar meu reflexo no espelho. Encolhi a barriga e empinei o peito, ajeitando a postura. Meu estômago roncou em protesto.
Fui para cozinha, fiz o café e servi uma generosa xícara para mim e despejei o restante na pia.
- Hum, que cheirinho de café delicioso! - Nando surgiu, terminando de abotoar os botões da camisa azul. Ele deu um bocejo e exibiu um sorriso como se nada tivesse acontecido. Tirei dois mistos quentes da sanduicheira e me sentei com a cara fechada. Cínico! - Ué? Você não passou café? - Ele balançou a jarra da cafeteira vazia, ainda sem entender.
- Claro que sim, peguei minha xícara e, o restante, acabei de despejar no ralo da pia. Se quiser, pode lamber dali. - Dei uma alfinetada antes de abocanhar o pão, o queijo derretido ficou pendurado quando eu mordi. - Hummm. - Gemi, provocando-o.
Ele colocou a jarra da cafeteira de volta no lugar e cruzou os braços me olhando de cima abaixo.
- Para que essa produção toda? Alguém morreu? - Perguntou, sarcástico. Eu estava começando a conseguir estragar seu dia, ele detestava sair de casa sem tomar café. Olhei para ele estreitando os olhos.
- Morreu não, explodiu! - Retruquei.
- Explodiu o que? Você está muito estranha.
- O saco da minha paciência, Fernando! Agora, me deixa tomar café que eu preciso sair daqui a pouco. Não posso me atrasar. Ele arqueou uma sobrancelha e passou a mão na barba cerrada.
- Hoje tenho reunião cedo. Não vou poder te dar carona. E, com esse salto, você vai acabar caindo sentada no chão do ônibus.
- Ah, meu querido esposo! Obrigada pela preocupação, mas um
botijão como eu não cai por qualquer coisa, não é mesmo? - Meu rosto se aquece com a memória da comparação que ele fez na noite anterior, mas desta vez eu não permito chorar, porque eu estou dando as cartas nessa rodada.
- Tudo bem, birrentinha, você venceu. Onde quer que eu te leve?
- Ele me pega pelo braço, seus olhos negros me fitam de verdade pela primeira vez em muito tempo. Penso em como o tempo pode ser mais injusto com as mulheres, pois apesar de ter aquelas ruguinhas e estar com uma pequena barriga por causa da cerveja, ele ainda carregava consigo um ar conquistador.
O interior da academia é tão luxuoso quanto seu exterior. No saguão, espelhos e luzes bem posicionadas tornam o ambiente ainda maior. Me aproximei do balcão de vidro fosco onde uma jovem me sorriu de maneira simpática.
O homem parado à minha frente devia ter quase um metro e noventa de altura, tinha o corpo trabalhado, quer dizer, perfeitamente esculpido em belos músculos e um abdômen trincado e adornado por tatuagens tribais que fizeram minha imaginação se perder por alguns segundos.
Ele pigarreou e secou o pescoço suado com uma toalha que pendia em seu ombro. E, que ombro! Oh, meu paizinho do céu, aqueles bíceps devem ter sido marcados por horas e horas de malhação! Será que ele percebeu que eu babei? Ai Senhor, que vergonha! Me mata com um raio agora, por favor!
- Vamos conversar melhor na minha sala. - Ele faz um movimento com a cabeça e eu o sigo, ficando um ou dois passos para trás. Suas costas são largas e seu corpo é atlético, talvez o nome da academia seja em sua homenagem... definitivamente!
Ele fechou a porta e indicou a poltrona cinza em frente à mesa de vidro. Sentei-me e o atrito da minha roupa com tecido fez um barulho cômico. Senti minhas bochechas corar, ai meu Deus! Além de tarada, ele vai achar que eu peido sem controle.

