#Capítulo 15 - Adônis

17/04/2018

Saí da cama e puxei o zíper da calça jeans. Um olhar de incredulidade ainda vagava em seu rosto. Janaína estava apenas de calcinha.
O modelo que eu havia mostrado no shopping há alguns dias atrás. Ela sibilou algo, atônita. Cobrindo os seios, puxando o lençol contra o corpo.
- Porque? - Ela sussurrou, quase sem voz.
Caminhei pelo quarto e abri a cortina com o controle remoto, o sol brilhava alto no céu. Voltei a encará-la.
- Hum, o porquê? Digamos que eu apenas estou devolvendo na mesma moeda. O "Senhor Perfeitinho" não é tudo isso pelo qual você está encantada. - Posso ver as lágrimas de indignação marejarem seus olhos castanhos, quase negros, mas isso não me comove. - Não me venha fazer cena, eu sei que você gozou, pelo menos umas duas vezes. Você curtiu cada momento!
-Porque? Porque? Porque? - Ela gritava, furiosa. Janaína se enfureceu e saltou sobre mim, estapeando meu rosto. Suas mãos são pesadas e fazem minha pele arder. Era quase impossível controlá-la.
- Chega, Janaína! - Rosnei, agarrando-a pelos braços e contendo seus ataques. - Isso não tem nada a ver com você!
- Como não tem a ver comigo? Você é louco? Porque, Adônis?
Porque você me usou, seu filho da mãe? - Ela era forte, e tive que imprimir um pouco mais de força ou ela se soltaria. A voz de Janaína era o som do ódio puro eu via repulsa em seu olhar.
- Pode parar de fingir, Janaína! Desde que você passou pela porta da academia eu vi a maneira como você me olhava. E, como eu disse antes, não tem nada a ver com você. Agora, me faça um favor: vá se limpar e vá correndo contar para o meu irmãozinho sobre como você gozou como uma cadela no cio enquanto eu fodia você! Eu! Vai logo! Estou louco para ver a reação dele.
As lágrimas de frustração desceram por sua pele morena clara e se misturavam aos seus cabelos ainda suados e despenteados. Seu peito subia e descia em uma respiração furiosa.
- Eu nunca... - Ela berra. - Nunca em sã consciência deixaria que você me tocasse! Eu queria poder sentir ódio de você, mas eu só sinto pena! Sabe porquê? Porque você é um fodido invejoso! Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando me deixei manipular por você!
Ela cospe em meu rosto e aperta o maxilar, rangendo os dentes.
Solto seus braços e limpo a saliva morna de meu rosto.
- Buááá! Acho que vou me debulhar em lágrimas, agora que sei sobre os sentimentos que a gordinha problemática tem por mim. Vá se enxergar, Janaína. Ah, não se esqueça de tomar a pílula que deixei na bancada da cozinha. Filhos não estão nos meus planos, ainda mais com você.
- Digo e saio do quarto sem olhar para trás.
******
Janaína Mendes


Cada fibra de meu corpo tencionava pela raiva que me corroía. Eu não podia mais nem olhar para o maldito à minha frente. Como ele teve
coragem de me usar de maneira tão sórdida? Adônis quase arrebentou a porta com a força da batida, o quadro pendurado na parede caiu no chão com o estrondo. Corri para o banheiro, meus dedos trêmulos tocaram o registro e abriram a peça com rapidez e a água fluiu. Girei um pouco mais, aumentando sua intensidade. Esfreguei o sabonete contra minha pele com força, eu queria livrar meu corpo de qualquer vestígio dele.
E aquela era a segunda vez que eu chorava naquela manhã, desta vez um choro convulsivo e descontrolado. Adônis me usara. Assim como Nando, ele me enganara. Eu era a trouxa naquela situação e odiava me sentir daquela maneira. Odiei-me ainda mais por ter gostado. Meu Deus, por ter gozado!
Como eu pude fazer isso com Dimitri?
Sentei no chão, impotente, arrasada, deixei que minhas lágrimas se misturassem a água que jorrava do chuveiro. Como eu poderia contar isso a ele? Não sei nem quanto tempo durou o banho. Aquilo também não importava. Eu saí nua, o corpo pingando, os cabelos encharcados e a luz que vinha da janela irritou meus olhos, sensíveis de tanto chorar. Vesti-me sentindo o corpo pesado, protestando para hibernar durante tempo indefinido.
Chamei um Uber enquanto juntava minhas roupas. Coloquei os maiores óculos que encontrei na bolsa e saí.
Adônis não estava mais no apartamento. Meus passos eram lentos e arrastados. Fui até a bancada da cozinha e lá estava o minúsculo comprimido branco. Sua voz ecoou em minha mente relembrando suas últimas palavras:
"Filhos não estão nos meus planos, ainda mais com você. "
- Não se preocupe querido, também não estão nos meus. - Engoli
o comprimido em seco.
******
Passei pelo portão de casa e Thor me recebeu com latidos de boasvindas, quase me derrubando enquanto eu passava pela porta da frente com minhas coisas.
- Calma garotão! Maltrataram muito o meu cachorrão? - Minha voz sai rouca. Ele se atira aos meus pés, ficando com a barriga para cima e as quatro patas para o ar. Uma risada escapou por meus lábios. - Também senti sua falta. - Digo me abaixando para afagá-lo.
Ando pela casa e largo minhas sacolas sobre o sofá. Me atiro ali, mesmo e coloco os óculos sobre a mesinha de centro. Fico de olhos fechados, tentando inutilmente não pensar em nada. Então a possibilidade de Fernando
surgir a qualquer momento me assombra. Não, isso eu não vou aguentar.
Pego o celular e ligo para o chaveiro. Quase uma hora mais tarde, um homem de meia idade usando um macacão marrom aparece na porta da frente.
- Eu quero que o senhor mude as fechaduras da porta da frente, da porta dos fundos e do quarto principal.
- A da garagem também, senhora?
- Não, por enquanto não.
Deixo que o homem comece o trabalho e volto para a sala. Já é quase três da tarde. O celular que Dimitri me dera para agendar as consultas
tocara sem parar. Todas as ligações foram atendidas, exceto as de Dimitri.
Mandei sua agenda atualizada por e-mail e continuei a ignorá-lo. Meu pai do céu! Como tudo tinha chegado a esse extremo? Eu estava pagando o chaveiro quando os meninos apareceram no portão.
- Mãe! - Gustavo, o mais carinhoso, me abraçou.
Guilherme me deu um abraço rápido, mas estava de cara fechada.
Gabriel passou por mim sem falar nada. Filhos... eles provavelmente só notaram minha ausência quando a pilha de louça se acumulou na pia e não encontraram roupas limpas no armário.
- Preciso falar com os três. - Digo em um tom sério.
Já na sala, eles sentam um do lado do outro na mesma posição de defesa, braços cruzados na frente de corpo e cenho franzidos.
- Por que você voltou? - Gabriel pergunta, com mágoa na voz.
- Não sei o que o pai de vocês falou, eu não queria envolver vocês nos detalhes sórdidos de tudo o que está acontecendo, mas acho que já estão bem grandinhos para entender. A verdade é que não existe mais amor nesse
casamento. Quando descobri a traição do seu pai, foi a gota d'água. Eu arrumei um emprego de secretária em um consultório pediátrico.
- Não quero mais ouvir essa bosta! - Gabriel me interrompe sem paciência.
-Nem eu! - Gustavo concorda, e ambos saem da sala, irritados.
- Não liga não, mãe. - Guilherme se levanta e senta no braço da poltrona, envolvendo-me em um abraço reconfortante - Hum... porque eu acho que esse carinho todo está repleto de
segundas intenções? - Puxo de leve seus cabelos castanhos. - Isso é por causa da filha do meu chefe?
- Nada a ver, mãe. Oh, mulher desconfiada essa ... desconfiada até o último fio de cabelo. - Ele dá uma risada e se entrega, me fazendo cócegas O celular vibra entre as almofadas do sofá. Espio no visor, mais uma chamada do "Meu Doutor". Meu coração aperta, e rejeito mais esta ligação.
Hoje é um dia negro para mim, e apesar de ter passado o dia sem comer, não sinto fome alguma, mas ligo para a pizzaria e encomendo quatro pizzas tamanho família e três potes de sorvete. Mando um e-mail para o advogado
da família, escrevo um extenso texto falando sobre nossos problemas e finalizo pedindo que ele agilize a papelada do divórcio com urgência. Já é quase sete da noite, quando ouço alguém bater no vidro da sala. Dou um pulo no sofá, ao ver a silhueta de Nando na janela. Eu me ajoelho no sofá para encará-lo melhor.
- Você pode ficar na garagem ou ir para a casa da sua nova garota.
- Sinalizo, apontando para o chão. - Essa casa está no meu nome, se você tentar entrar vou chamar a polícia.
Sinto olhar de indignação, mas não me intimido. Então fecho a cortina. Ouço o carro de Fernando sair cantando pneu. Assisto sozinha à segunda temporada de How I Met Your Mother, rindo e chorando ao mesmo tempo, completamente sozinha. Seco as lágrimas na almofada e estremeço quando ouço a buzina de uma moto. Tenho medo que seja Dimitri, ainda não estou pronta para enfrentá-lo. Não conseguirei olhar para ele e contar toda a verdade, mesmo sabendo que ele merece e tem o direito de saber. O som da
buzina é insistente.
- Mãe, você não vai atender? - Guilherme sai do quarto usando apenas uma bermuda.
- Atende para mim? Já estou de pijama. -Puxo a camiseta larga e ele torce a boca e espia a janela.
- Tem um motoqueiro aí na frente. - Meu coração acelera. - Você pediu alguma coisa?
- Ah é, as pizzas chegaram. - Digo, entregando o cartão. - Seja um anjinho e pega para mim, por favor?
Uma hora depois eu estou extasiada e mal respiro, depois de uma overdose de pizzas. Volto para minha fossa e dou uma colherada uma vez ou outra no sorvete que derrete devagar no pote ao meu lado.
Eu penso em um milhão de maneiras diferentes de dizer a Dimitri, mas em todos os cenários aquilo soa ridículo e imoral. Eu ainda me sinto suja. Uma idiota completa. Não havia jeito de Dimitri me perdoar, eu o perderia, perderia o emprego e voltaria à estaca zero! A voz de Adônis não saía de minha cabeça: " Vá se enxergar, Janaína! " E logo era substituída pela voz de Samanta: "Uma secretária, ela não é mulher para você! " Será que ele tinha feito aquilo porque a mãe pedira? A verdade é que eu jamais saberia o que passou pela cabeça de Adônis para me usar daquela maneira.
Ouço latidos vindos da rua, o som da chuva abafa os diálogos da televisão. Chamo pelos garotos, mas eles já devem estar dormindo. Espio pela janela, por uma brecha na cortina. Sinto um aperto no peito ao ver Dimitri entre as grades, o corpo ensopado pela chuva que caía sem piedade.
Não, não, não! Porque você veio? Não posso vê-lo agora. Não sem lembrar de Adônis, não sem pensar em traição. Fechei a cortina devagar, torcendo para que ele não me visse. Sentei-me no sofá e abracei os joelhos contra o corpo, esperando que ele se cansasse de esperar. Os latidos que vinham da rua ainda denunciavam sua presença. Maldito doutor, porque você tem que ser tão teimoso? "Você não vai dizer não para mim, não é? " A voz de Dimitri invadiu meus pensamentos e a angústia em meu peito tornou-se insuportável. Saí porta afora e destranquei o portão.
Ele continuou parado de pé, me encarando.
- Porque, Jana? - Sua voz era triste e a decepção em seus olhos, mortificante.
Meu Deus ele já sabia. Adônis fizera questão de contar. O chão abriu-se diante de meus pés e, por mais que eu quisesse me defender, eu
apenas conseguia chorar. Ele deu um passo à frente. Suas roupas escuras completamente encharcadas, a camisa colada ao corpo. A respiração descontrolada, meu Deus! Eu odiava vê-lo daquela maneira.
- Porque Jana? - Ele perguntou novamente, segurando meu rosto em suas mãos grandes, fazendo-me olhar em seus olhos tristes.
- Eu o confundi com você. Ele fingiu que era você, Dimitri. - As lágrimas rolavam por meu rosto.
Eu podia lê-lo como um livro aberto.
- Seja sincera uma última vez. - Balancei a cabeça concordando, temendo por sua pergunta. - Você gozou? - Senti a repulsa em sua voz.
- Eu acreditei que era você. - Choraminguei.
- Responda! - Ele apertou um pouco mais meu rosto em suas mãos.
- Sim! - Gritei, sentindo o coração queimando dentro do peito. - Me desculpe!
Dimitri soltou meu rosto, e desviou o olhar do meu.
- Desculpe, mas não posso.

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